ANFÍBIOS
Os anfíbios da
Serra do Japi podem ser facilmente encontrados no verão,
quando se reproduzem. É comum ouvir machos vocalizando
durante o dia no interior da mata ou nos riachos da Serra, o
que se intensifica com o cair da noite, quando a maioria das
espécies inicia suas atividades reprodutivas. Os sapos
e rãs podem ser encontrados no chão, enquanto
que as pererecas são mais comuns na vegetação.
A maioria dos anfíbios do Japi coloca seus ovos na água,
onde se desenvolvem os girinos. Os anuros que vivem na camada
de folhas do chão da mata são mais abundantes
na mata de altitude da Serra e próximo aos riachos, devido
à maior umidade nesses locais.
Há
uma predominância das famílias Hylidae (pererecas)
e Leptodactylidae (rãs) entre os anuros da Serra do
Japi (ver Tabela). Os anuros da Serra têm em geral ampla
distribuição, às vezes sendo encontrados
desde o Nordeste do Brasil até a Argentina, como por
exemplo o sapo Bufo crucifer. Alguns, no entanto,
têm distribuição mais restrita, como as
pererecas Scinax hiemalis e Hyla luctuosa,
encontradas apenas no Estado de São Paulo. Esta última
foi descrita (recebeu um nome científico) por Pombal
Jr. & Haddad (1993) com base em indivíduos coletados
na Serra do Japi, ou seja, os indivíduos que servem
de modelo para a identificação da espécie
vieram da Serra.
A biologia
reprodutiva de boa parte dessas espécies foi estudada
no Japi por Andrade (1987), que trabalhou numa poça
de área aberta, e por Haddad (1991), que trabalhou
em uma represa, em riachos de corredeira e em poças
temporárias na área de floresta. Além
disso, Haddad & Sazima (1992) trazem uma série
de informações sobre as espécies de anuros
da Serra.
Tanto Andrade
(1987) quanto Haddad (1991) observaram maior atividade reprodutiva
na estação chuvosa (outubro a março),
época em que há um maior número de locais
propícios à reprodução dos anuros,
como poças por exemplo. Algumas espécies, no
entanto, reproduziram-se ao longo de todo o ano, como as pererecas
Hyla minuta e Hyla prasina, enquanto
que a perereca-do-inverno, Scinax hiemalis,
reproduziu-se nos meses de maio e junho, na estação
fria e seca. Apesar de a época reprodutiva se concentrar
no verão para a maioria das espécies, seus picos
de reprodução foram em épocas diferentes
dentro da estação.
Foi observada
uma segregação espacial entre as espécies
em relação aos locais escolhidos pelos machos
para vocalizar e atrair as fêmeas. Os sapos e rãs
utilizaram, em geral, o chão da mata ou da margem dos
corpos dágua, enquanto que as pererecas preferiram
a vegetação. As pererecas possuem discos adesivos
na ponta dos dedos e normalmente usam a vegetação
durante suas atividades. A maioria das espécies é
de atividade noturna e iniciam a atividade de vocalização
em horário próximo ao pôr do sol. As espécies
que vocalizam no chão, como Bufo
ictericus e Eleutherodactylus binotatus
por exemplo, por estarem menos sujeitas à perda de
água do corpo, podem começar suas atividades
mais cedo. Brachycephalus ephipium, também
uma espécie de chão, vocaliza durante o dia,
assim como Hylodes cf. ornatus, que vocaliza
sobre pedras de riachos.
Tanto a separação
das espécies ao longo do tempo, quanto as diferenças
na utilização do ambiente, devem diminuir a
competição pelos recursos necessários
à reprodução. As duas espécies
do gênero Bufo, contudo, apresentaram padrões
temporais e de uso do espaço semelhantes, o que levou
à reprodução cruzada entre essas espécies
com a formação de indivíduos híbridos.
O modo de reprodução
mais comum entre as espécies estudadas foi o de colocação
dos ovos em água parada, onde eclodem e se desenvolvem
os girinos, como ocorre por exemplo com Hyla prasina
e as espécies do gênero Scinax. Algumas
espécies colocam seus ovos em ninhos de folhas (Phasmahyla
cochranae e Phylomedusa burmeisteri)
ou em ninhos de espuma (Physalaemus cuvieri)
e após a eclosão os girinos passam ao ambiente
aquático. Em outras espécies, como por exemplo
as do gênero Eleutherodactylus, dos ovos já
eclodem jovens com morfologia de adultos. Esses exemplos ilustram
diferentes graus de dependência da água para
a reprodução em anuros. Além disso, foi
observado um modo de reprodução até então
desconhecido para a família Hylidae, em que o macho
de Hyla leucopygia cava um ninho subterrâneo
na lama à margem de poças temporárias
onde é feita a desova. Após a eclosão
dos girinos o ninho é alagado e estes vão para
a poça.
Na maioria das
espécies os machos permaneciam num mesmo local enquanto
vocalizavam para atrair as fêmeas. Em Bufo crucifer,
no entanto, foram observados machos procurando ativamente
fêmeas nos locais de reprodução. Uma outra
estratégia alternativa, a do "macho satélite",
foi observada em Hyla prasina e Scinax
fuscovaria. O macho satélite fica abaixado,
próximo a um macho vocalizador. Quando este consegue
uma fêmea e deixa o local, o macho satélite assume
o posto e passa a vocalizar. Às vezes, o macho satélite
intercepta a fêmea quando ela se aproxima do macho vocalizador.
Nas duas espécies de Bufo também foi
observada a estratégia do "macho deslocador",
em que um macho, ao encontrar um casal em amplexo (o macho
abraçando a fêmea por trás), tenta deslocar
o macho empurrando-o com a cabeça ou com os pés,
por vezes com sucesso.
Finalmente, Giaretta
e colaboradores (1997) estudaram o efeito da altitude e da
proximidade de riachos sobre os sapos do chão da mata,
entre eles Brachycephalus ephipium, Eleutherodactylus
guentheri e E. juipoca. Comparando dois pontos
da Serra, um a 850 e outro a 1000 m de altitude, esses pesquisadores
observaram que o número de sapos foi maior a 1000 m,
o que provavelmente se deve à maior umidade neste local.
Além disso, foi observado um maior número de
sapos nas proximidades dos riachos, o que também deve
estar relacionado à maior umidade próxima aos
corpos dágua.
M.S.A.
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Espécies
de anfíbios anuros
observadas na Serra do Japi.
Dados obtidos de Andrade (1987), Haddad (1991), Haddad &
Sazima (1992) e Pombal Jr. & Haddad (1993).
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Família
Espécie,
(nome popular)
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Brachycephalidae
Brachycephalus
ephipium, (botão-de-ouro, pingo-de-ouro)
Bufonidae
Bufo crucifer,
(sapo)
Bufo
ictericus, (sapo, cururu)
Centrolenidae
Hyalinobatrachium
eurygnathum, (rã-de-vidro)
Hylidae
Hyla albopunctata
Hyla arildae,
(perereca-verde)
Hyla bischoffi,
(perereca)
Hyla
faber, (sapo-ferreiro, sapo-martelo, sapo-gameleiro)
Hyla leucopygia,
(perereca-verde)
Hyla luctuosa,
(perereca)
Hyla minuta
Hyla prasina,
(perereca)
Hyla sanborni
Phasmahyla
cochranae, (perereca-da-folhagem)
Phyllomedusa
burmeisteri, (perereca-da-folhagem)
Scinax fuscovaria,
(perereca-do-banheiro, raspa-cuia)
Scinax hayii,
(perereca)
Scinax hiemalis,
(perereca-do-inverno)
Leptodactylidae
Crossodactylus
sp. (aff. dispar), (rãzinha-do-riacho)
Eleutherodactylus
binotatus, (rã-da-mata)
Eleutherodactylus
guentheri, (rãzinha)
Eleutherodactylus
juipoca, (rãzinha-do-capim)
Eleutherodactylus
parvus, (rãzinha)
Hylodes cf.
ornatus, (rã-das-cachoeiras)
Leptodactylus
cf. ocellatus, (rã-manteiga, rã-mirim,
rã-paulistinha)
Odontophrynus
americanus
Physalaemus
cuvieri, (foi-não-foi, rã-cachorro)
Proceratophrys
boiei, (sapo-de-chifre, untanha-pequena,
sapo-folha)
Microhylidae
Elachistocleis
ovale
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